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Pesquisa · Meio ambiente

Pesquisa mapeia microplástico em rios da Mata Atlântica

Cientistas brasileiros publicam dados inéditos sobre a concentração de partículas em seis bacias. O estudo aponta fontes principais e abre caminho para políticas de redução.

Por Dr. Henrique Salles · Revisão técnica: Profa. Alice Nogueira · Publicado em 6 de julho de 2026 · atualizado em 6 de julho de 2026 · 9 min

Por décadas, o plástico que entra nos rios brasileiros foi tratado como problema visível: garrafas, sacolas, embalagens. Um estudo recém-publicado por uma equipe de pesquisadores de três universidades federais mostra que o problema mais sério pode ser o que não se vê. Pela primeira vez, o trabalho mapeou a concentração de microplástico em seis bacias hidrográficas remanescentes da Mata Atlântica — e os números surpreenderam os próprios autores.

A pesquisa, conduzida ao longo de dois anos, coletou amostras em mais de quarenta pontos entre o sul da Bahia e o norte do Rio Grande do Sul. Em todos eles, foram encontradas partículas plásticas com menos de cinco milímetros. A variação entre os pontos foi grande, mas nenhum ficou livre da contaminação.

O que é microplástico

Microplásticos são fragmentos pequenos de plástico, com menos de cinco milímetros. Têm duas origens principais. A primária vem de partículas fabricadas nesse tamanho — como as microesferas de cosméticos. A secundária resulta da degradação de plásticos maiores expostos ao sol e ao atrito. Ambas chegam aos rios por esgoto, lixo e enxurrada.

O QUE DIZ O ESTUDO
Foram coletadas 412 amostras em 6 bacias da Mata Atlântica. A mediana de partículas por litro foi de 8,7 — valor acima do relatado em estudos europeus equivalentes. Em dois pontos urbanos, passou de 30.

O número mais alarmante, segundo os autores, é a presença consistente. Não se trata de pontos isolados, hotspots pontuais. Trata-se de contaminação difusa, presente até em rios que cruzam áreas de preservação. Isso muda a forma de pensar o problema: não basta limpar aqui ou ali.

De onde vem

A análise química das partículas permitiu identificar as principais fontes. A maior parte vem de tecidos sintéticos — roupa de poliéster, nylon, acrílico — liberados na lavagem doméstica e não retidos pelo tratamento de esgoto. A segunda fonte são as fibras de pneus, liberadas pelo atrito dos veículos nas estradas e levadas pela chuva. Embalagens e sacolas vêm em seguida.

O plástico que você usa por cinco minutos vira uma partícula que fica no rio por décadas.

A frase é de uma das pesquisadoras, que coordena o laboratório responsável pelas análises. Para ela, o estudo ajuda a deslocar o debate do consumidor individual para o sistema. "Não adianta só reduzir o canudo. Tem que pensar no esgoto que não filtra, no pneu que se desgasta, na roupa que solta fibra", explica.

O que isso significa para a saúde

O impacto do microplástico na saúde humana ainda é objeto de estudo intenso. O que se sabe até agora é que as partículas podem ser ingeridas por organismos aquáticos — de peixes a moluscos — e chegar à cadeia alimentar. Também já foram encontradas em água potável e até no sangue humano, em estudos internacionais.

A pesquisadora evita alarmismos, mas reconhece a urgência. "Não temos evidência de dano agudo imediato. Mas temos evidência de exposição generalizada. Isso é suficiente para agir", diz. Para ela, a questão é de princípio de precaução: quando há exposição massiva a algo novo, é razoável reduzir antes de esperar provas definitivas de dano.

O caminho adiante

O estudo aponta três frentes de ação. A primeira é o tratamento de esgoto: tecnologias existentes conseguem reter grande parte das microfibras, mas precisam ser ampliadas. A segunda é a regulação de fontes — como a proibição de microesferas em cosméticos, já adotada em outros países. A terceira é a fiscalização do descarte de pneus e plásticos em áreas ribeirinhas.

Para os autores, o dado brasileiro tem peso. O país tem uma das maiores redes hidrográficas do mundo e ainda muita Mata Atlântica em pé — menos de 15% da cobertura original, mas relevante. Proteger o que resta inclui proteger a água que corre por ela. E essa água, mostrou o estudo, já não está intacta.

O próximo passo da equipe é expandir o mapeamento para a Amazônia, onde dados ainda são escassos. Se em rios próximos a áreas urbanas da Mata Atlântica o quadro já é preocupante, a pergunta é: o que encontraremos onde o rio ainda parece intocado?

Tags: microplásticoriosmata atlânticapesquisa
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Dr. Henrique Salles

Jornalista científico, doutor em divulgação da ciência. Escreve sobre meio ambiente e pesquisa brasileira.